Histeria e monstruosidade
As milícias e os assassinos de farda são o novo monstro da classe média brasileira. O que antes era ficção agora virou terror, já que essa criatura nefasta foi avistada no pior lugar que poderia estar – circuitos internos flagraram o horror em capas de jornais e revistas, o rosto do “Brasil” e do “cidadão”. Não pela primeira vez, o medo e a indignação tomaram a opinião pública, mostrando toda a hipocrisia de uma sociedade cega que vive de espetáculo e de uma falsa mobilização.
Essa inversão de papéis não é novidade como se vende hoje, mas vem de um lugar distante. O que amedronta a sociedade é que a ação das milícias fez um movimento proibido – de cima do morro para o asfalto, do Norte para o Sul do Rio, das bordas para o centro das capitais. O mais chocante para jornalistas, leitores e “opinadores” é a falta de limites desses bandidos. Em outras palavras o que é dito é: “Como ousam fazer isso com alguém que nem é ‘favelado’?”. Momentos como esse transbordam o pensamento de uma elite, transformando o que antes era velado em indignação geral. Assim a manutenção de uma posição ergue-se como uma bandeira de “bem de todos e felicidade geral da Nação”.
Sociólogos especialistas em aparecer nos telejornais começam a multiplicar-se proliferando um discurso arcaicamente novo que pela primeira vez na semana encontra a causa das milícias. Todos fingem surpreender-se com o salário e o despreparo dos policiais, derramando lágrimas de crocodilo e maldizendo a insegurança pública e a incompetência do Estado. O País chora o infinito de algumas semanas, tempo suficiente para um retorno estratégico dos esquadrões da morte oficiais. O assunto se encerra quando o monstro busca novamente a cobertura dos barracos de alvenaria e chão de barro, milagrosamente blindados contra qualquer tipo de olhar. A calamidade se encerra onde começa e o silêncio reina absoluto até outro borbulhar da violência, com ou sem Rolex roubado, por merecimento ou não.
As coisas retornam para seus devidos lugares e os vigilantes do bem comum podem então prestar novamente atenção nas Olimpíadas e Copas do Mundo, cansando-se com os aeroportos de vez em quando. Assim as armas fardadas voltam para sua função e alvos originais, mantendo, pelo terror, os menos cidadãos na linha. A ordem e o progresso seguem de novo seu curso enquanto a corregedoria lava as mãos do sangue de jovens que sempre estão a 9 mm e 6 balas de um tênis ou um celular novos. A máscara de pena é recolocada até outra anomia da ordem caótica existente. No fim resta o silêncio de uma ditadura social que não interessa para jornalistas e intelectuais. A monstruosidade miliciana volta a ser folclore enquanto um monstro maior pode continuar a mastigar sem medo de ser visto.