sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sobre a nostalgia

    Nessa semana aproveitei uma das melhores manhãs das minhas férias. Acordei cedo na casa da minha namorada e, por pedir e insistir, fui deixado por minha sogra no Shopping Tatuapé, a uns seis quilômetros de casa.
   Aposentei o bilhete único e resolvi fazer todo o trajeto a pé, aproveitando a oportunidade para me exercitar um pouco. O caminho levou exatamente uma hora e quarenta minutos, contando o tempo que levei para tomar um café da manhã na padaria e para escrever um pensamento abaixo em meu caderno.
   O mais legal de tudo não foi sacudir a poeira e o sedentarismo ao fazer uma atividade física, mas poder passear sem pressa pelo bairro onde cresci.
   Nesses seis quilômetros encarei subidas e descidas só para passar pela frente das casas que morei. Foram cinco no total, o que deve ter alongado o percurso um pouco. Por estar sozinho e sem carro pude parar e observar esses lugares com afeto, percebendo detalhes interessantes como o aumento das grades e portões e até algumas reformas totais.
   Foi embalado nessa maré de lembranças que pude refletir um pouco sobre o que é nostalgia, pensamento que tento expressar abaixo:

Nostalgia é um sentimento mental e físico que brota da parte de trás da cabeça 'brumando-se' através do cérebro. Atravessa neurônios e décadas, chegando aos olhos que enchem-se de lágrimas de imagens antigas. A alma (ou consciência, como preferir) fica solta em um não-instante, balançando-se entre a tênue linha entre o passado e o presente.
Solto no espaço é possível percorrer pessoas, objetos e cômodos da casa de um outro 'eu' que já não existe, mas habita um espaço cativo e feliz em nossas histórias e mentes.
Nostalgia é, antes de uma viagem no tempo, o luto de uma homenagem a um tempo que já passou. Nem melhor e nem pior, só um tempo e um 'eu' diferentes. 


Você sente saudades de quê? 

 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tentativa

 Definir a si mesmo é igual a ordenar uma velha estante de livros. Primeiro tiramos todas as obras que acumulamos com o tempo, limpando a poeira de anos de uso e não uso. Tiramos os rótulos, o senso comum e as definições preconcebidas aplicadas e auto-aplicadas durante anos. Descartamos aquelas publicações infantis que nunca mais leremos, e as visões já ultrapassadas de nós. O que resta depois é tentar reordenar tudo novamente, pendurando palavras inéditas em velhas molduras.

Minha faxina ontológica é pesada. Caem conceitos adolescente e outros nem tanto e eu sigo buscando a palavra certa. Grunge vai direto para o lixo, estava cheia de bolor. Thelemita não cabe mais, era inconveniente, uma filosfia de vida impressa em A2. Evolução, busca e Deus? Nenhuma! Todas essas são visões ultrapassadas, não se adequaram à minha nova norma, caíram. No final, seguro apenas uma palavra, que, numa ironia, fica perfeita para o título desse texto: Tentativa.

Esse grupo de nove letras foi a única coisa que resistiu à pressão de adequar-se como definição de uma coisa tão complexa. Ela é a única palavra que consigo levar a qualquer nível, me definindo sem me importar com a profundidade. "Tento na vida", "Tento a vida" e "tento vida". Fico feliz por alguns segundos com minha nova carapuça, até perceber que algo com tantas funções só pode ser algo que não faz nada. O que resta então? O melhor é não tentar. Não definir.

Penso que sou uma coisa que, sei, está ali comigo, mas torna-se inacessível a partir do momento em que procuro. Sou completamente meu e exclusivo quando não penso ou me importo com isso de me definir, mas me escapo assim que quero ter a mim. O que sobra dessa vez? É um não-ser que é quando em descanso. Uma língua parada sem som ou saliva, uma caneta parada que encara a folha em branco. No fim, o que me resta é o enigma de ser uma estante vazia.



* Texto escrito (e escorraçado) para a disciplina Técnicas de Redação II.