Homem e menino
Era homem de domínio. Bem visto e quisto exatamente pela arte de dominar. Torcia e retorcia seu léxico, espichando-o a seu bel prazer conforme suas necessidades e usos. Para a plateia que assistia, ele era um malabarista equilibrando prefixos, sufixos e aspas bem colocadas enquanto brincava de palavras. Jogava um “pseudo” e o público urrava, incendiava algum “medíocre” e a comoção era incontestável.
Quando ganhou experiência ficou insuportável. O gosto pela ciência ampliou sua sensação de controle. Era agora o dono de sua linguagem, e os sintagmas eram Pulex irritans em seu circo. Navegava por filos, reinos e famílias. Colecionava “logias”, ”tomias”, “oses” e “istas”. Já nem mais falava, discursava com certeza. Conversar não era preciso, já que apenas interessavam aquelas experiências que envolviam colisões de núcleos atômicos, células embrionárias e “trezentos mil quilômetros por segundo”. Mas um dia a vontade do empirismo venceu.
A língua rebelde rebelou-se, quebrando correntes estilísticas como se fossem de papel, e destroçando todo o garbo, e inundando pensamentos com frases e sujeitos e verbos e indagações. Sem mais ritmo, sem mais nada, sem saber de nada, era um nada nonada, era menino. Suas pulgas sumiram e refugiaram-se no seu colchão. Não era mais dono de suas letras e fonemas, estes o possuíam, e retorciam e moldavam, mas sem equilibrá-lo, já que parte da diversão era vê-lo cair.
Ele caiu, dominado. Sem as tradicionais certezas, agora só o ser de certeza. Tinha e era “serteza”. Errado mas nunca tão certo, afogado mas respirando como nunca, iletrado de todas as letras mas entendido e erudito como nunca. Não mais homem cientista, virava agora menino alquimista. Na busca incessante de um eu que transforma letras em ouro. Vida eterna em papel de pão. Finalmente ele, irmão da língua.